quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Η μαύρη τρύπα


Quem melhor conhece a verdade é mais capaz de mentir.
Sócrates (o outro… aquele… o inteligente)






Nas últimas semanas tem-se falado com afinco numa potencial da greciezação cá do burgo. Ora não bastava termos levado na pá dos gregos na final do torneio, cujo nome não ouso pronunciar, ainda temos que importar usos e costumes gregos, como ir para a bancarrota. As coisas começam finalmente a fazer sentido e não é uma coincidência inteiramente fortuita, mas um desígnio concertado pelos deuses, o facto de termos um primeiro-ministro com o nome de um famoso filósofo grego. O "só sei que nada sei" ganha uma nova dimensão. Tudo tem um propósito, um objectivo. Compreendemos agora que, contrariamente ao que apregoam alguns arautos da desgraça, como o inclemente louco que dá pelo nome de Medina Carreira, o nosso primeiro não mente, dá-nos perspectivas filosóficas sobre a nossa realidade e vivência quotidiana. Podemos imaginar o diálogo entre o Medina Carreira (MC) e o nosso Sócrates (S) acerca do buraco negro das finanças públicas:
S: Grande buraco negro que aqui está… Uma belo local para fazer uma ponte de quatro tabuleiros: um para bicicletas, um para carros, um para o TGV e um para as pessoas poderem passear ao Domingo.
MC: Mas senhor primeiro-ministro, isto não vai ainda aprofundar ainda mais o buraco?
S: Claro que não, que ideia. Notoriamente você não percebe nada de gestão de dinheiros públicos.
MC: Mas, Sr. Primeiro…
S: Xiuu! Faz-se uma bela inauguração. Põe-se umas palas laterais de 2 metros de altura… para as pessoas não olharem lá para baixo… por causa das vertigens!... Mas que cara essa, Medina! Que incréus estes sofistas…! Oh, homem, se tem uma solução melhor diga!
MC: Bem, pelos meus cálculos, temos hoje mais construtores corruptos do que em 1910, mais advogados incompetentes e juízes incapazes, temos um belo naipe de deputados medíocres, uma catrafada de presidentes de câmara analfabetos e eticamente mal formados, uns quantos jornalistas lambe-botas e uma cambada funcionários públicos parasitários… se juntarmos esta malta toda e a atirarmos para dentro buraco, penso que facilmente o taparemos. Um bocadinho de alcatrão por cima e ficará impecável.
S: Ideia mais disparatada… Não há dinheiro que chegue para uma coisa dessas… Temos que saber gastar o dinheirinho público. Ainda se propusesse o aprofundamento do buraco para fazermos um túnel daqui até à Madeira, podíamos pensar no assunto… agora isso. Meta isto na cabeça: não há dinheiro para gastar em coisas superficiais…
MC: Como dar dinheiro a bancos sem viabilidade financeira?
S.: E você que não viesse com essa. Fique sabendo que em breve teremos o retorno de tudo que lá foi enterr… perdão, investido. Talvez o dobro.
MC: Pois… quem sabe o triplo!
S: Exacto, quem sabe! Olhe meu caro, não quer passar lá em casa para beber um copito? Tenho lá uma bela bebida grega... cicuta. Já ouviu falar?
MC: Não!
S: Porreiro pá!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Próxima estação "Esperança"

No centro, as ruínas do Convento do Carmo, o último vestigio do terramoto devastador de 1755. À sua volta, tudo o que a vontade e a visão dos homens conseguiram reerguer. Esta é uma das poucas coisas que os Portugueses realmente podem oferecer aos Haitianos, uma lição da história. Uma história de preseverança e esperança. Que consigam os Haitianos o que os portugueses de então conseguiram.
Perante uma tragédia tão inumana, quão pequeninos são os nossos problemas.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Os terroristas

Quando ouvimos falar de terroristas há um conjunto de palavras ou siglas que nos vêm imediatamente à mente – CIA, NSA, FBI, Interpol, Scotland Yard, Mossad… brigada antiterrorista daqui, brigada antiterrorista dali. Enfim, tudo profissionalíssimas e eficientíssimas organizações de combate ao terrorismo. Calculo mesmo que, no interior das células terroristas, deve haver algo como um código de ética profissional, em que ser perseguido por qualquer uma destas entidades é uma condição sine qua non, uma questão de estatuto. Fulano de tal foi abatido pela Mossad, beltrano foi apanhado pela CIA. É por isso que não posso deixar de olhar com alguma pena para os dois etarras presos em Portugal. Embora não nutra qualquer simpatia pela forma como lutam pela causa que professam (sendo ateu rezo com toda a força para que os espanhóis os fechem numa cela e deitem a chave fora), confesso que me perturba um pouco a forma pouco digna como tudo isto se passou. Depois de anos de conspirações, de identidades secretas, de tráfico de armas, da frequência de antros, certamente perigosos, ser preso pela GNR de Torre de Moncorvo é um fim indigno de uma carreira de terrorista. Sem desprimor para a GNR de Moncorvo, que terá certamente muitos méritos, temos que ver isto no cenário mais amplo e vasto. Nisto do martirismo terrorista ser preso pela GNR de Torre de Moncorvo não é algo que se queira ter no currículo. Ainda se fosse a PSP da esquadra do Paraíso, no Porto, pelos GOES, ou mesmo por um daqueles polícias que anda de bicicleta ali para os lados do Estoril, ainda vá… mas pela GNR de Torre de Moncorvo! Não há dignidade de terrorista que resista.
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NOTA: Na imagem vemos os três estarolas, gente corajosa que dá a cara (como podem ver) pelo que acredita. Planeando certamente um corajoso ataque bombista, que é como quem diz, um corajoso assassinato de pessoas inocentes.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O desígnio nacional

A Assembleia

…portantos, como diria o outro (não me perguntem quem é o outro, talvez seja da família da outra senhora) temos, finalmente, um desígnio nacional. Pela histeria colectiva lá para os lados da Assembleia da República e de alguma opinião pública (atendendo ao assunto em causa, talvez opinião púbica fosse o termo mais correcto) decidir acerca do casamento gayzola é o grande desígnio nacional. Pouco importa que o assunto já tivesse sido sufragado eleitoralmente. Constava nos programas dos três partidos de “esquerda” com assento parlamentar, e a diferença entre cada um deles nesta matéria é muito menor do que, por exemplo, na gestão da economia, dos impostos e dos serviços públicos. Atendendo ao número de votos que os três partidos obtiveram, parece-me que se há um assunto em que a Assembleia tem legitimidade para decidir de consciência tranquila é este. Mas não, claro que não? Porque há-de a Assembleia fazer aquilo que lhe compete, num assunto manifestamente secundário, quando pode prolongar disputas ridículas e inúteis? Meus amigos o povo já decidiu… se o povo acha que não é assim para próxima que esteja atento no que vota.

Os do Referendo

Depois há os do referendo… não importa se o país está em crise, se há milhões de pessoas com dificuldades económicas extremas, se neste momento a maior parte do pessoal quer é saber se terá emprego daqui a um mês. Não, nada disto importa, o que importa é o casamento gayzola. Vamos lá gastar mais uns milhões numa campanha (pelos vistos não tivemos já campanhas eleitorais que cheguem), vamos lá pôr os palermas na assembleia da república a discutir se pessoas que gostam de prazeres rectroactivos podem ou não casar, vamos colocar a comunicação social à caça de gambozinos e de não notícias (já estou mesmo a ver a notícia “3 homos, 2 sapatonas e 4 assim assim, mais o Sérgio Sousa Pinto manifestam-se em frente da Assembleia da República, por causa de uma coisa qualquer, que não sabemos bem o que é…”). Provavelmente estar-me-ei a esquecer que todos subscritores desta petição são pessoas de bem, homens e mulheres de família, que nunca entraram em esquemas fraudulentos, nem nas pequenas corruptelas, nem têm amantes, nem têm filhos de pai incógnito, ou são pais de filhos incógnitos. Gente boa, cheia de bons valores morais, ou não vivêssemos nós em Portugal. Se calhar estou-me a esquecer que alguns dos principais subscritores deste referendo nunca tiveram nenhuma responsabilidade na gestão deste país, nem sequer são responsáveis pela situação onde nos encontramos e por isso não têm nenhum interesse em desviar as atenções do buraco negro em que nos encontramos (por buraco entenda-se buraco económico e financeiro, é que há por aqui mais buracos ao barulho, e eu não quero cá confusões). Como disse, se calhar estou-me a esquecer… sou um esquecido…

A Igreja

Depois há a igreja. Aaaahhh a igreja! Quantas e belas histórias edificantes cheias de valor moral se poderiam contar… mas fica para outra altura.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Heróis, messias e "special ones"

“Há dois anos, pela primeira vez na vida, comecei a trabalhar com computadores. No motor de busca Google fiz uma pesquisa com as palavras “moinho” e “energia solar”. É incrível descobrir o que existe sobre estes assuntos! Os meus amigos ensinaram-me a criar um endereço de e-mail(...) já sei enviar e receber correio electrónico.”
William Kamkwamba The Boy Who Harnessed the Wind (tradução livre)

Não obstante o bombardeamento mediático a que somos sujeitos com a miríade de novos "heróis" que tentam impingir-nos, poucos são aqueles que têm provas dadas dessa qualidade. Bigger than life diz-se de todos aqueles cujos feitos únicos ultrapassam, na exacta medida, o que acreditamos, com uma certeza dogmática, ser impossível de concretizar. Com todo o acesso à informação que temos, quantas pessoas ainda vivas classificaríamos como maiores do que a vida? Duas? Três? Meia dúzia? Não há prémios, nem marketing que fabriquem os verdadeiros special ones. Estes são-no por carácter, empenho e dedicação. Por muito adversa que a natureza das coisas lhes seja.
E eis que, não sendo um pássaro, não sendo um avião, muito menos um super homem, do Malaui para o mundo, chega William Kamkwamba. Não é ainda bigger than life, mas é certamente um exemplo de esperança e força de vontade.
Quem é este ser humano singular?
É o segundo de sete irmãos, nascido numa família de camponeses na aldeia de Mastala, no Malaui. Cedo foi obrigado a abandonar a escola devido às dificuldades económicas.
E o que tem especial este homem, hoje com 21 anos?
Aos 14 anos, numa aldeia sem electricidade, construiu um moinho de vento capaz de gerar 12W, o suficiente para alimentar 4 lâmpadas. De seguida, aumentou o moinho, fez diversas modificações e este passou a abastecer de electricidade três divisões da casa e a varanda. Esta energia ainda alimenta dois rádios e carrega os telemóveis dos vizinhos.
Como é que ele fez isto?
Recorrendo à biblioteca da escola primária da sua aldeia, utilizando alguns conhecimentos de inglês e baseando-se na interpretação das figuras dos livros que consultava.
Os vizinhos achavam que ele era maluco! Pois bem... os vizinhos estavam enganados.
Agora até tem um livro The Boy Who Harnessed the Wind.
Pode não vir a ser maior do que a vida, mas é certamente uma luz de esperança. E, nos dias de hoje, é sempre bom ver uma luz, mesmo que alimentada por um moinho de vento feito de materiais que os agricultores rejeitaram, dois suportes, uma correia, um dínamo e um quadro de bicicleta.